O quadrinista André Diniz, autor de O quilombo Orum Aiê (Galera Record, 2010) e Morro da Favela (Barba Negra/LeYa, 2011), entre outros, inaugura hoje sua coluna quinzenal aqui no portal do Rio Comicon - Pensando Quadrinhos, onde vai refletir sobre temas e questões que dizem respeito ao seu trabalho como quadrinista e ao mundo das histórias em quadrinhos. André Diniz é roteirista e desenhista de histórias em quadrinhos e autor e ilustrador de livros infanto-juvenis. Entre 2000 e 2005, publicou diversos trabalhos de sua autoria pela Nona Arte, sua própria editora, pelos quais ganhou 14 prêmios, entre eles o de melhor roteirista, melhor graphic novel, melhor edição de quadrinhos, melhor editora de quadrinhos, melhor site de quadrinhos, entre outros. A partir de 2005, passou a publicar suas obras em outras editoras. Em 2010, ganhou o prêmio HQ MIX de melhor roteirista por seus trabalhos publicados em 2009, 7 Vidas e Ato 5.
> Leia a entrevista com André Diniz
Na coluna de estreia, Diniz reflete, a partir de uma pergunta que recebeu em um bate-papo sobre o seu trabalho, sobre o que seriam os quadrinhos feitos no Brasil hoje. "Entendo que o quadrinho 'comercial' seja aquele que as editoras estão dispostas a publicar, aquele que as livrarias querem exibir em suas vitrines e aquele sobre o qual a mídia quer falar a respeito. [...] O nosso mercado está apenas começando. Há muito ainda o que crescer. Mas está crescendo, finalmente, a partir de uma premissa maravilhosa. O nosso mercado quer autores", escreve ele. Leia a seguir a primeira coluna de André Diniz.
O nosso mercado quer autores
Escrevo este texto com a lembrança do dia em que foi anunciado o rebaixamento dos EUA nos índices econômicos mundiais pela primeira vez na história. Mesmo sendo um leigo crônico em economia (o que inclui até mesmo a economia doméstica do dia a dia), atrevo-me a estrear a coluna indo na essência dessa notícia. Não importam aqui as implicações econômicas. Quero apenas ilustrar aqui um fato: o mundo mudou. O mundo muda sempre.
Esse pensamento me veio algumas vezes seguidas de uns dias para cá. Uma delas, foi ao assistir ao musical Rent em DVD. A história traz um casal gay, um casal de lésbicas e o amor entre um homem e uma prostituta. Ao fim da história, me deu um clique: esse filme é politicamente correto! Há uns 30 anos, a mesma história seria polêmica, provocadora, mas hoje é bonitinha. Prega o amor sem preconceitos, essas coisas. Hoje, quem quiser escrever uma história com a intenção de chocar o público, vai ter que rebolar um bocado.
Outro momento em que me veio claramente o quanto os parâmetros mudam foi na oficina de roteiros que ministrei no Gibicon, um evento sensacional de quadrinhos que ocorreu em Curitiba em julho passado (que seja o primeiro de muitos). Após falar sobre o meu trabalho, mostrando os álbuns 7 Vidas (Conrad, 2009), O quilombo Orum Aiê, e Morro da Favela, um dos participantes perguntou se eu não pensava em criar quadrinhos mais comerciais.
"Quadrinhos comerciais." Vou tratar o termo aqui sem preconceito ou arrogância. Nada de opor quadrinhos comerciais versus quadrinhos artísticos. Vamos à essência da palavra. Aliás, voltando à oficina, fiz com o participante a maior maldade que um professor pode fazer com um aluno: devolver a pergunta.
"O que você chama de comercial?"
O jovem gaguejou um pouco (eu também gaguejaria, fosse qual fosse a pergunta) e usou a associação mais imediata: mangá, super-herois... Por aí.
Fomos juntos à essência da palavra. Por comercial, entendo que seja algo compatível com o mercado, algo que interesse ao público e que se encaixe no mercado atual e local. O quadrinho comercial, então, não seria definido por temas ou gêneros. Seria aquele que o artista brasileiro pode oferecer e que haja um público leitor considerável interessado em ler. Que o público leia, comente, recomende. Mas não só isso: entendo que o quadrinho "comercial" seja aquele que as editoras estão dispostas a publicar, aquele que as livrarias querem exibir em suas vitrines e aquele sobre o qual a mídia quer falar a respeito.
Então, o que seria o quadrinho comercial no Brasil de hoje, aquele que cabe aos artistas brasileiros produzir? Qual é o tipo de quadrinho nacional que se enquadra nesses quesitos? Super-heróis brasileiros? Mangás made in Brazil? Dificilmente. Entre os diversos lançamentos recentes que vêm ganhando interesse das livrarias, das editoras, da mídia e dos leitores, poucos são os que se encaixam nesses dois estilos.
Seriam quadrinhos "didáticos"? Hmmm... Não exatamente. Se formos considerar as vendas para programas de governo, não é esse o critério de seleção, ao contrário do que muitos pensam. O critério de seleção é que a obra desperte o interesse do estudante pela leitura. Nada mais. Adaptações literárias ou tramas com cenários históricos são muito bem-vindas, desde que tenham uma relevância como uma obra autoral. Títulos explicitamente didáticos, algo como Descobrimento do Brasil em Quadrinhos, não entram nessa seleção.
O que podemos deduzir então? O nosso mercado está apenas começando. Há muito ainda o que crescer. Mas está crescendo, finalmente, a partir de uma premissa maravilhosa. O nosso mercado quer autores.
Autores.
O mercado de quadrinhos nacionais não quer que o artista se adapte a padrões dessa ou daquela indústria. Nem a padrões próprios. O único padrão é a falta de padrões. O mercado dos quadrinhos nacionais não quer um novo Moebius, um novo Jack Kirby ou um novo Milo Manara. O nosso mercado quer você. Você, que escreve e que desenha HQs. O leitor quer saber o que você tem a dizer, ao seu modo, do seu jeito. Sem máscaras.
O mercado quer a sua palavra. Se você simplesmente fizer uma obra genuinamente sua, as editoras querem publicar. A mídia vai comentar. As livrarias vão vender. Os leitores querem conhecer seu estilo, querem ler as suas ideias e se envolver com suas histórias.
No atual mercado de quadrinhos nacionais, quadrinho autoral e quadrinho comercial são sinônimos.
Isso não é inspirador?
Texto muito lúcido, como é sempre uma característica do André! Parabéns pelo ótimo texto!
Bela coluna, André! Obrigada por dividir esse sonho conosco. Sim, é muito inspirador!
Excelente!
Com certeza muito inspirador, André! Obrigado e parabéns pelo ótimo texto.
Demais, André! Bela visão e depoimento!
Disse tudo!!Parabens,Andre!!
Inspirador, desafiador e muito prático. Belo texto, é um "mãos a obra" na cara dos autores =)
Parabéns pela coluna, André. Vc sabe que sou seu fã. Concordo com seu raciocínio e conclusão. Porém, gostaria de acrescentar algo que é essencial à simples vontade de o autor "dar a sua palavra": QUALIDADE.
O mercado está mais aberto para autores brasileiros, é verdade. Só que a concorrência ficou maior. Tem muita gente boa fazendo quadrinhos de altíssima qualidade - você, Laudo e Omar, Will, Daniel Esteves, Cadu Simões, Mário César, Grampá, Rafa Albuquerque, Moon e Bá, Vitor Cafaggi, José Aguiar, Estevão Ribeiro, Nestablo, Danilo Beyruth... vixe, a lista é imensa!
Então, a boa notícia que não basta mais uma ideia na cabeça e uma pena na mão. Cada vez mais, quem quiser ocupar espaço e ser notado pelas editoras vai ter que estudar, se esforçar, pesquisar. E isso é muito bom! Quem tem a ganhar somos nós, leitores.
Forte abraço!
Sem dúvida, Jota, a coisa agora tá séria pra valer. Há alguns poucos anos atrás, só o fato de produzir uma HQ era um mérito por si só. Hoje não, hoje tem que fazer bem feito. Abração!
André, parabéns pela coluna! Com um excelente texto de estreia, diga-se!
Além do que meu amigo de fé, irmão camarada, Jota Silvestre disse, quero acrescentar a questão dos leitores à discussão. Ou se preferir, dos não leitores de HQs. E não apenas de quadrinhos, mas os não leitores em linhas gerais.
Reparou que produzimos muitos livros (e quadrinhos, até) mas... quem lê? Isso rende uma pauta boa. E vai além... é algo para se pensar/discutir/resolver.
Abs!
Tudo bom, Tarsis?
Olha, acho que as HQs hoje deixaram de ter um único público fixo, por conta da diversidade dos temas, abordagens e estilos. Só pra falar dos meus próprios: O Quilombo Orum Aiê teve como maior público o estudantes, por conta da compra dele pelo governo para as bibliotecas das escolas públicas. 7 Vidas, onde falo da minha experiência com regressão a vidas passadas, foi bem lido pelo público feminino. Já o Morro da Favela atraiu pessoas interessadas nas favelas sob uma ótima social, além dos leitores que gostam de ler biografias. Isso, claro, sem falar no bom e velho leitor de quadrinhos, que também conferiu os três títulos.
Acho que a pergunta "quem lê quadrinhos" está ficando superada. Hoje, boa parte do público perdeu sua resistência às HQs. Daí, a pergunta a se fazer é "quem vai ler ESSE quadrinho?" Um álbum como Kardec, por exemplo, vai atingir ao leitor que se interessa pelo tema. Uma coletânea de tiras do André Dahmer atinge outro público completamente diferente. E isso é fantástico.
Há anos atrás, dizia-se que nossos concorrentes eram os super-heróis americanos e, um pouco mais pra frente, os mangás japoneses Hoje, nós concorremos com Dostoievski, com Paulo Coelho, com a Bíblia, com livros de receitas, com Machado de Assis, com Stephen King. Isso é uma responsabilidade enorme. Viramos gente grande para o mercado.
Caro André Diniz,
A editora L&PM lançou recentemente “A Enciclopédia dos Quadrinhos”, de autoria do jornalista Goida e deste que vos escreve, obra composta por verbetes dos principais escritores e desenhistas dos quadrinhos, sendo que o senhor consta como um dos artistas mencionados em tal publicação. A obra está disponível nas melhores livrarias brasileiras e também no site da editora - http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=936150&ID=508300
Saudações,
André Luis Nunes Kleinert
Um milhao de parabens!! Nossos desenhistas são os melhores(estamos até com os norte-americanos),só precisamos que sejam reconhecidos e valorizados por um povo reconhecido e valorizado.
Jeanete