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História em quadrinhos agora é graphic novel!

Por Augusto Paim*

O termo graphic novel tem sido usado por editoras, no Brasil e no exterior, como se fosse a marca de uma grife. Estampando-o nas capas dos livros ou usando-o nas campanhas de marketing, os editores parecem estar querendo afirmar: “Esta obra é boa, vale a pena ler”. Graphic novel assumiu a mesma função de um carimbo onde estivesse escrito: “qualidade garantida”.

Uma discussão sobre qual seria a designação correta para esse tipo de quadrinho que não é nem de super-herói, nem infantil foi recentemente trazida à tona por Érico Assis no blog da Companhia das Letras. Não há consenso sobre o uso, por vários motivos, mas principalmente em função da palavra “graphic”. Não seria uma obra de Jonathan Safran Foer, como Extremamente alto & incrivelmente perto (Rocco, 2006) [imagem abaixo] também um “romance gráfico”? Nem precisamos ir tão longe: um romance de Machado de Assis não é gráfico, no sentido de que é tinta sobre papel?

 

Esse silogismo me faz lembrar um outro, bastante invocado na minha área de atuação, o Jornalismo Cultural. Ora, o jornalismo é um produto da cultura humana, então, óbvio, todo jornalismo é cultural. Assim como todo jornalismo, em tese, deve ser investigativo. A discussão é interminável, e eu, como o carteiro Jaiminho, prefiro evitar a fadiga. A minha opinião sobre isso é: vamos deixar que o uso de uma expressão molde o seu significado. Já há bastante tempo, acostumou-se a designar “Jornalismo Cultural” como a editoria que trata de cultura e arte, e “Jornalismo Investigativo” como a modalidade jornalística que trata de apurações às escondidas visando a denúncias de crimes. Simples assim. Não se deve separar a palavra “Jornalismo” da palavra “Cultural” ou “Investigativo”. Deve-se olhar a expressão inteira e a singularidade do significado dessa expressão, não apenas somar as suas partes. Da mesma forma deveríamos agir diante do termo graphic novel. Até porque, se for pensar bem, todo termo é questionável, se levarmos em conta sua raiz. Por que chamar de “romance”? De “cinema”? De “fotografia”? No uso corrente da linguagem, a origem pouco importa; o que interessa é o significado que a sociedade atribuiu e que permite a comunicação sem ruídos. O dicionário etimológico explica a origem de uma palavra, mas não pode controlar o seu modus operandi.

 

Um debate que a mim parece muito mais importante não é em relação a graphic, mas sim a novel. Porque, em verdade, são poucos os quadrinhos que li até hoje que apresentam as características de um “romance”. Lembro, ao acaso, apenas de Cachalote (Quadrinhos na Cia., 2010), de Rafael Coutinho e Daniel Galera [imagem acima]. E essa definição passa longe do número de páginas – diz respeito, antes de qualquer coisa, a elementos do enredo. Em linhas gerais, a maioria das obras configura-se, em matéria de estratégias narrativas, como seu falso amigo, ou seja, novelas. E, eventualmente, vejo que alguns livros (recordo especialmente de Die wahre Geschichte vom Untergang der Alexander Kielland) encaixam-se com perfeição naquilo que Cortázar definiu como as características do conto: tensão, intensidade, significação. Poderíamos acrescentar aí a palavra ”concisão”, como consequência das demais.

Daniel Werneck, em uma postagem no seu blog A Garagem Hermenêutica, parece ter a mesma percepção: “Analisando ‘graphic novels’ famosas e conceituadas, a sensação que obtemos delas é semelhante a de ter lido um grande conto, e não um romance ou uma novela.” Werneck, no entanto, usa nessa argumentação os critérios de número de páginas, de palavras e de meses de produção. Na definição deu um gênero literário, porém, isso pouco importa. Um romance pode ser curto, e uma novela se alongar por centenas de páginas. Um romance pode ser escrito em uma semana, assim como o conto de um escritor preciosista exigirá anos de laboração.

Trata-se de uma equação difícil de fechar, e eu, particularmente, quase preferiria assumir a irônica forma proposta pelo Érico – “gréfic nóvel” –, mas essa questão de gêneros artísticos complica tudo.  Talvez fosse o caso de se pensar em novos gêneros, que possam atender especificamente às necessidades da linguagem dos quadrinhos. De qualquer forma, não há uma solução imediata.

Inclusive, percebo uma motivação profunda, de raízes mais antigas, para essa popularização do termo graphic novel. É que essa linguagem carece de uma denominação que corresponda ao seu valor artístico. Veja só o caso do Brasil. O diminutivo de “quadrinho” sempre fará a palavra remeter a gibis para crianças e adolescentes. No inglês e no alemão, comics liga-se diretamente a “cômico” [1], mas, quase óbvio dizer, o cômico é hoje apenas uma das naturezas possíveis dentro da linguagem dos quadrinhos (há quadrinho trágico, dramático, lírico – veja o Poema em Quadrinhos (Cosac Naify, 2010), do italiano Dino Buzzati [imagem abaixo]).

Mesmo na França e em Portugal, o termo “banda desenhada” parece ser pouco para designar uma linguagem que não só utiliza outras técnicas além do desenho, como também não pode ser definida apenas como “banda” ou “tira”. Daí que me ocorre a seguinte conclusão: o termo graphic novel agrada tanto porque traz consigo um ar de requinte; conota sofisticação, faz com que a sociedade veja com olhar mais atento algo a que só estava acostumada a passar distraidamente os olhos. Nesse sentido, o termo graphic novel é bastante funcional e praticamente começa a ser utilizado como um grande guarda-chuva, substituindo a denominação genérica da linguagem dos quadrinhos. Resta saber o seu prazo de validade.


[1] Sobre isso, uma leitura recomendável é o livro História em quadrinhos: essa desconhecida arte popular (Marca de Fantasia, 2004), de Thierry Groensteen. O autor situa três domínios de gênero que estão na origem histórica das HQs: a aventura; a ficção científica/a fantasia; e o humor/a tolice. Sobre esse último tema, Groensteen diz que “a história em quadrinhos herdou traços da caricatura” e que “o humor aparece mesmo no início como sua inclinação natural”. Ele comenta sobre essa vocação como ela se manifestou nos Estados Unidos, “onde os termos comics e funnies, que designam indiferentemente a HQ veiculada nos jornais, indicavam sem ambiguidade a missão dos cartoonists: fazer rir ou sorrir” (p. 33).

* Augusto Paim é jornalista. Produziu, junto com o quadrinista Maumau, a reportagem em quadrinhos sobre a periferia carioca, Inside the Favelas/Inside Maré, publicada no site Cartoon Movement. Traduziu para o português Johnny Cash – uma biografia (8Inverso, 2009), premiada obra do quadrinista alemão Reinhard Kleist. Em 2010, foi curador e organizador do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. No portal do Rio Comicon, publicou trecho de um artigo sobre as Entrevistas em Quadrinhos do argentino LiniersMais em seu site pessoal e no twitter: @augustoteles.

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4 comentários

  1. Como diria o cartunista Fernando Gonsales:

    O termo "História em Quadrinhos" diminui muito esta arte. Se fosse pra ficar justo, livros de texto deveriam ser chamados de "Histórias em Letrinhas".

  2. Ótima a contribuição do Pedro Leite, citando o Fernando Gonzales (ri muito aqui!).
    Realmente, Augusto: concordo contigo que se trata de um rótulo cultural mesmo, para dar prestígio e sofisticação - e deve ter mesmo um prazo de validade. Colocaste bem muitas das ambiguidades em torno de possíveis rótulos dessa linguagem. Mas a questão é: trata-se de uma linguagem específica mesmo? Cada vez eu tenho menos certezas, pois são tantas as variáveis...
    Nem sempre uma narrativa gráfica é narrativa, por exemplo, o que invalidaria, em muitos momentos, o próprio termo história em quadrinhos, pois se não há enredo, "fio de intriga", ou qualquer espécie de jornada, por mínima que seja, há história? E o que dizer quando não há quadros (ou enquadramentos)? E quando a noção de sequencialidade não é linear como aquilo que Will Eisner percebia como arte sequencial? E por aí vai...
    Os "termos da moda", como "graphic novel" é o da vez, só vêm, na minha opinião, para preecher a lacuna sobre o entendimento dessa linguagem híbrida, como comentaste. Pois o que acontece é que que se tenta dar conta dos quadrinhos como uma linguagem única, totalizante e engessada, como a estrutura do romance tradicional - que por si só já não serve aos estudos literários desde a primeira metade do século XX. Nesse caso, ao dizer "romance gráfico" (em inglês ou português) deveríamos também nos perguntar: "qual romance?", "que tipo de romance?".Pois, sendo assim, eu discordaria de ti, Augusto (só pra colocar mais questionamentos nesta discussão): "Cachalote" tem estrutura de romance? Penso eu que não, a não ser que fosse um romance muuuuuuito fragmentado, quase um livro de contos - assim como a "Trilogia do Contrato com Deus", do Eisner, e quase todo romance contemporâneo que surge por aí; pra mim, Hugo Pratt, Frank Miller e Alan Moore fazem muito mais "romance gráfico", nesse sentido.
    Essa discussão me parece cada vez mais forte e parece que há muita gente querendo quebrar a cabeça junto agora para tentar formular alguma coisa a partir disso. Manda ver aí, Augusto! Um abraço!

  3. rafael campos rocha /

    eu acho - posso estar enganado - que os gêneros existem para serem superados. o artista que se conforma ao gênero "tem a falta de talento e temperamento que os discípulos costumam apresentar" (Cioran). acho que o gênero pode ser uma ferramenta de análise, mas pode ser dogmática se transformada em um instrumento de julgamento estético. parabéns pelo texto.

  4. rafael campos rocha /

    como sempre, me arrependo de postar coisas. foi mal, moçada!

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