Depois de anos sem publicar quadrinhos, e dedicando-se aos romances, Lourenço Mutarelli acaba de lançar Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente. Não que tenha parado de desenhar e rabiscar estes anos todos, mas contar histórias através de alguma narrativa gráfica havia perdido o sentido para ele. Agora, a volta foi mais por um convite da editora, a Quadrinhos na Cia. – selo da Companhia das Letras que vem editando seus romances – do que por um desejo de contar uma história. Mutarelli optou por fazer uma pintura por página, num tamanho final próximo a de um A4 deitado. O seu universo, porém, está todo lá, nesta história onde o narrador recorda as circunstâncias descritas no título.
Texto e imagem não necessariamente se correspondem, há muitas páginas em silêncio e a história parece andar em um moto perpétuo, um ciclo que se fecha, não importa por onde você comece a leitura. Vale ler e reler, com calma, aleatoriamente e na ordem inversa. Abrir qualquer página e seguir. “Vamos em frente”, é o que repete o narrador, para que acompanhemos a tortuosa história de seu pai, um estranho colecionador de fotos antigas de desconhecidos e que tem sua vida abalada pelo desaparecimento repentino e fortuito da esposa. Ele ainda tem por hobby desmontar máquinas velhas para remontá-las em seguida, sendo que nenhuma delas volta a funcionar. Pode estar aí algum fio para entender a obra recente do escritor, onde máquinas velhas são pessoas que tem sas vidas ordinárias desmontadas por algum acontecimento fortuito, sendo não mais possível que elas vivam da mesma maneira. Não há volta, parece querer nos dizer Mutarelli.
Apesar do vigor que Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente apresenta, ele não satisfez de todo o autor, ao menos enquanto produzia o álbum, no final de 2010, e quando batemos este longo papo com ele, durante o primeiro Rio Comicon. “Porque não consigo a mesma liberdade que consigo nos meus cadernos, por exemplo. Eu queria uma coisa mais libertária, uma coisa mais experimental. Acho que a gente tem que recuperar um pouco o experimental, no bom sentido. Eu não quero fazer o que sei fazer. Eu não sei fazer nada, mas não quero aprender a fazer nada também”, afirmou.
Na conversa, Mutarelli falou de forma tocante dos amigos quadrinistas, da batalha que é fazer quadrinhos, da preferência hoje em dia em produzir textos, das experiências no teatro e nos cinema e arriscou uma resposta para a atenção que seu trabalho tem atraído nos últimos anos: “Uma época eu percebi que estava muito doente mentalmente, quando publiquei meu primeiro trabalho. E, conforme fui melhorando, o mundo foi adoecendo. E conforme o mundo foi adoecendo, ele foi aceitando o meu trabalho. Então pra mim foi bom, tô bem, tô legal, mas o mundo está muito doente. Acho que o fato de o mundo gostar do meu trabalho é um sintoma da doença mundial. Quando eu estava doente eram poucas pessoas que estavam passando o que eu estava passando. Hoje em dia, quase todos os meus amigos têm esse tipo de problema. Talvez seja alguma coisa que está na água, no ar, não sei”. (Colaborou Felipe Abrahão)
Qual a relação com os quadrinhos na sua infância, o que deste universo você começou a absorver naquela época?
Lourenço Mutarelli. Meu pai tinha uma coleção de quadrinhos boa, principalmente quadrinhos da era de ouro, Raul Foster, Will Eisner, Dick Tracy, coisas que eram bem legais e que tive contato muito cedo. Eu nunca li Disney nem Mauricio [de Sousa], essas coisas, porque eu tinha contato com outro quadrinho que talvez fosse menos infantil, mas que me interessava mais. Acho que foi fundamental não só o contato que tive na minha infância, mas a minha própria vivência da infância, acho que é uma coisa que alimentou muito o meu trabalho. As primeiras impressões e coisas assim.
Fale então um pouco dessa infância e o que te influenciou.
Mutarelli. A minha infância foi muito sombria, por minha culpa também. Porque eu tive uma visão talvez nada distorcida da realidade. Acho que vi a realidade muito próxima do que eu vejo hoje. Mas como criança isso era bastante perturbador. E, por alguma razão, eu tenho muito a lembrança de primeiras impressões e acho que isso me alimenta até hoje. A infância é um lugar a qual recorro muito, as minhas primeiras impressões do mundo.
E você já desenhava nessa época que estava lendo esses quadrinhos?
Mutarelli. Me lembro de desenhar, mas não de quando comecei, porque sempre lembro que eu desenhava. E impressionava, chamava um pouco a atenção das pessoas que estavam à minha volta. E sempre ver quadrinhos era uma coisa que me inspirava, me estimulava muito.
Estes quadrinhos que você citou então sempre foram uma referência forte?
Mutarelli. Entre vários outros, foram influências bastante fortes, não só do começo da carreira, mas do começo dessa percepção narrativa e sequencial. Acho que isso me marcou bastante.
E começar a produzir as tuas HQs, as tuas histórias mesmo, como é que foi?
Mutarelli. Isso foi muito quando começou a sair a Circo [revista editada por Laerte e Luiz Gê], a Chiclete com Banana [revista editada por Angeli], nos anos 1980. Foi quando resolvi tentar me profissionalizar, publicar quadrinhos e tentar viver disso. E aí comecei trabalhando no Mauricio de Sousa, na parte de animação, na época da faculdade, fiz Belas Artes. Eu queria trabalhar com desenho, mas, nessa época, eu queria cada vez mais fazer quadrinhos, então acabei saindo do trabalho para tentar publicar as minhas histórias. Comecei publicando fanzine com o Marcatti, que era a editora Pro-C, isso foi em 1988. E aí consegui um espaço pequeno na Animal, no suplemento dela, o Mau, e depois publiquei em revistas da editora Vidente, que era a Porrada Especial; depois a gente editou a Tralha, junto com o Marcatti e o Glauco Mattoso. Isso tudo foi nessa época 1988, 1989, 1990, quando comecei a publicar meus primeiros trabalhos.
Foi um momento bem bom pros quadrinhos. Conversando com o pessoal aqui [no Rio Comicon 2010], eles comentaram que a Chiclete com Banana vendia 100, 120 mil.
Mutarelli. Era um momento muito rico, onde você ia na banca e encontrava muito material bom, muita graphic novel na época, material do mundo todo. Nas bancas tinha muita coisa publicada por várias editoras. Era um momento muito promissor pros quadrinhos [um avião passa próximo da Estação Leopoldina].
E para você que viveu, participou desse momento, qual foi o cenário que possibilitou isso?
Mutarelli. Eu acho que o que abriu um caminho, pelo menos pros quadrinhos nacionais, na época, foi justamente a Chiclete com Banana ter essa tiragem grande, conseguir vender. Isso foi uma coisa estimulante na época. O mundo todo estava num momento interessante nos quadrinhos. Foi quando surgiu o Frank Miller com muita força, Alan Moore, Miguelanxo Prado [quadrinista galego], tinha muita gente de peso publicando nessa época e que estava sendo lançado no Brasil também. Tem alguns quadrinistas que gosto muito e acho que nunca foram publicados aqui, como o [quadrinista francês Jacques] Tardi [na verdade, a Conrad publicou O grito do povo em dois volumes, em 2005]. Do [quadrinista argentino José] Muñoz, acho que saiu algo coisa talvez na Animal. Ela era uma revista mais radical neste sentido de trazer um material mais alternativo, ou menos conhecido, como RanXerox [clássico quadrinho italiano, criado no fim dos anos 1970 por Stefano Tamburini e desenhado por Tanino Liberatore, ganhou edição de luxo pela Conrad em 2010] e várias outras coisas importantes.
Nessa época, o que possibilitou o meu trabalho seguir em frente foi justamente a I Bienal Internacional de Quadrinhos, criada por estes organizadores aqui do Rio Comicon. A Bienal foi em 1993, aqui no Rio, e ganhei um prêmio, de melhor história do biênio, com Transubstanciação, meu primeiro álbum, empatado com outra história minha, Por que sinto tanto prazer com a dor?, publicada numa revista que se chamava Mil Perigos. Estes prêmios foram muito importantes para a minha carreira, para fortalecer o meu trabalho e conseguir seguir.
Queria que você falasse sobre o teu universo. Transubstanciação, para algumas pessoas que mostro e não conhecem o teu trabalho, não são muito ligadas a quadrinhos, elas se espantam um pouco, não entendem em um primeiro momento. De onde vem esse universo?
Mutarelli. Eu fiz Transubstanciação quando estava vivendo um momento bem difícil. Estava com uma depressão profunda, com alguns problemas neurológicos, vamos dizer assim, e passei muito tempo ruim. Essa história veio na minha cabeça nesse momento e quando eu melhorava, tinha condição, sempre ia desenhando um pouco. É uma história estranha mesmo. Até hoje, quando revejo. É uma história pela qual tenho muito carinho, porque ela foi muito importante pra mim, mas é uma história bastante estranha. Mas gosto dessa loucura que tem nela, dessa experimentação. Ia fazer Transubstanciação pela Pro-C, uma edição independente, com 500 exemplares. E aí, no fim, apareceu uma editora, a Dealer, que publicou 30 mil exemplares, saiu em banca e vendeu, sei lá, 10, 13 mil, uma quantidade razoável e foi o que possibilitou eu seguir fazendo esse trabalho.
[Felipe] Me lembro de uma palestra na Bienal, e saí de lá com um pôster que tinha um cara se matando, com um tênis Mal Estar. Você se lembra disso?
Mutarelli. Foi uma capa de uma revista Mil Perigos, onde fiz uma família brasileira suicida. Era o tênis Mal Estar.
[Felipe] Fiquei com isso na cabeça pra caramba. Tinha ido a vários dias [na Bienal], e aquela coisa de super-herói na minha cabeça. Tinha ainda o Moebius, muita gente lá. E aí esse viés crítico e essa sua onda começou a ser uma coisa que, para mim, fazia bem mais sentido ler do que os super-heróis. Essa temática é o mais difícil, né? Como é a transição dessa temática, até quando as suas histórias começam a ser filmadas anos depois?
Mutarelli. Uma época eu percebi que estava muito doente mentalmente, quando publiquei meu primeiro trabalho. E, conforme fui melhorando, o mundo foi adoecendo. E conforme o mundo foi adoecendo, ele foi aceitando o meu trabalho. Então pra mim foi bom, tô bem, tô legal, mas o mundo está muito doente. Acho que o fato de o mundo gostar do meu trabalho é um sintoma da doença mundial. Quando eu estava doente eram poucas pessoas que estavam passando o que eu estava passando. Hoje em dia, quase todos os meus amigos têm esse tipo de problema. Talvez seja alguma coisa que está na água, no ar, não sei. Mas... sei lá, é estranho, é estranho. A passagem também... Fiquei muitos anos publicando meus álbuns de forma muito imperceptível também. Tenho 11 álbuns de história em quadrinhos e quando estava terminando meu último álbum, escrevi O cheiro do ralo (Devir, 2002. 1. ed.; Companhia das Letras, 2011. 2. ed.), meu primeiro livro. E aí foi um momento, quer dizer, meu trabalho chamou a atenção pelo livro, e não pelos quadrinhos, né? Tenho dois livros filmados [O cheiro do ralo (Direção de Heitor Dhalia, 2006) e O natimorto (DBA, 2004. 1. ed.; Companhia das Letras, 2009. 2. ed.) (Direção de Paulo Machline, 2009)] e houve a possibilidade de filmar um trabalho em quadrinhos que não vingou [O dobro de cinco (Devir, 1999)]. Então tem também um preconceito muito forte contra os quadrinhos. Em alguns momentos, ele fica um pouco mais na moda, tem um pouco mais de aceitação, mas existe um preconceito muito grande com os quadrinhos.
[Felipe] Os quadrinhos de heróis são mais filmados.
Mutarelli. Os quadrinhos de heróis são filmados, mas mesmo eles são muito deturpados. Eu não acompanho muito. Tinha uma animação, a gente chamava de “desanimados”, era só uma mão que aparecia, isso eu gostava. E as revistas vinham com cheiro de gasolina, eu adorava cheiro de gasolina, ficava cheirando aquelas revistas e lia. Era uma experiência interessante. Mas foi o único contato que tive com quadrinhos [adaptados]. Essas adaptações de quadrinhos de heróis, acho que vi talvez o primeiro Batman [direção de Tim Burton, 1989] e não vi mais o que está sendo feito.
[Felipe] Você acha que eles perdem a força com essas adaptações?
Mutarelli. Acho que é deturpado, não tenho certeza, mas acho que é muito deturpado. Tem sempre essa coisa muito explosiva do cinema americano e acho que as coisas se perdem. O Batman que vi adaptado, o quadrinho era muito mais interessante do que essa adaptação filmada.
[Felipe] E com o seu trabalho, como vê as adaptações?
Mutarelli. Em O cheiro do ralo, por exemplo, o Heitor [Dhalia, diretor] já tinha uma visão um pouco diferente, mas acho que foi isso que deu a grandeza que o filme teve, por ser um filme pequeno. Teve mais de 200 mil espectadores, pra gente foi muito bom. Mas acho que essa adaptação, esse olhar do diretor, onde existe alguma diferença, foi isso que abriu e tornou mais acessível. Se fosse muito fiel, acho que seria um filme pouco visto e pouco apreciado. O natimorto, meu segundo livro a ser filmado, acho que o diretor tentou uma fidelidade maior.
E por que parou com os quadrinhos e se dedicou a escrever?
Mutarelli. Primeiro, porque era coisa que exigia que eu trabalhasse muitas horas por dia. No mínimo, 12, às vezes 18 horas por dia, para eu conseguir fazer um álbum por ano. O meio é desgastante. É um meio em que, durante muito tempo, nunca fui muito aceito. Isso estava me cansando, estava um pouco saturado. E aí tive a ideia de uma história e estava percebendo que, quando lia um livro, a minha imaginação chegava muito mais próxima da realidade do que quando eu via um quadrinho que tinha um filtro já. A imagem já me segurava nesse caminho. Então comecei a ficar com vontade como um, sei lá, contador de histórias. E foi aí que experimentei esse primeiro texto. E cada vez gosto mais do que a palavra evoca.
O seu romance mais recente [Nada me faltará (Companhia das Letras, 2010)] vai de novo para outro caminho, digamos minimalista, são só diálogos. Você vai tirando o que seria o excesso, o excessivo, talvez. Por que de novo essa opção?
Mutarelli. A primeira imagem que veio quando eu estava pensando nesse livro era em tentar, se fosse um quadrinho, escrever ele só com balão. Sem nenhum recordatório, sem nenhuma caixa de texto que situasse o leitor. E como gosto muito da música minimalista, uma coisa que ouço muito, fiquei com vontade de escrever uma história minimalista. E aí essa estrutura foi se repetindo. O meu objetivo era esse: tentar decompor, como eu conseguiria contar uma história com o mínimo de informação possível. Esse foi o meu desafio.
Antes desse livro teve Miguel e os demônios (Companhia das Letras, 2009), mas antes ainda, A arte de produzir efeito sem causa (Companhia das Letras, 2008). Bom, tem várias coisas ali que me chamam a atenção. Primeiro, que é uma coisa que esta acontecendo com ele [Júnior, o protagonista], que nem ele sabe, nem a gente está sabendo. Tem várias referências que você faz ao [escritor beatnik William] Burroughs. E também tem, de novo, começa a ter, um traço, alguma coisa que leva ao personagem a fazer algo mecânico, repetitivo. Como foi isso?
Mutarelli. A arte de produzir efeito sem causa é muito inspirada na obra do Burroughs. Eu li a obra completa dele e tentei, de alguma forma, abrasileirar algumas coisas e trazer pro meu universo. E aí o personagem fazia uns gráficos e eu não sabia exatamente como eram esses gráficos e comecei a tentar criá-los para entender o que seriam. E aí voltei de forma compulsiva, não exatamente a desenhar, mas a criar gráficos. E no que acontecia com o protagonista, são sempre as frases cortadas. Tentei acinzentar a página, concentrar mais o texto. Quando comecei a escrever, parei de ler romance, ficção, comecei a ler só livros teóricos, porque não queria me influenciar muito. Acho que o Burroughs me contaminou de uma forma muito violenta, não só na minha escrita, mas na minha cabeça. Fiquei um tempo meio... eu me perdi na obra dele. Agora acho que já saí um pouco disso. Adoro ler coisas que me tocam, encontrar um autor, ir atrás, tentar ler o máximo possível desse autor. Mas, quanto mais eu trabalho, menos eu leio. É muito difícil eu conseguir tempo pra ler quando estou trabalhando, muito envolvido com o meu trabalho. Mas tenho sempre períodos onde eu leio compulsivamente.
Mesmo que não seja para me inspirar ou me influenciar, é uma coisa para eu me distanciar um pouco de mim ou das minhas formas de associar ideias, que é uma coisa que o Burroughs fala muito. Tentar quebrar um pouco esse mecanismo de associação de ideias que o meu cérebro faz. Acho que quando estou lendo um outro autor, começo a associar de uma outra forma, começo a me distanciar um pouco desse mecanismo natural.
[Felipe] Desse pessoal da nova geração, que está aqui, começando a publicar, você faz algum paralelo...
Mutarelli. ... os gêmeos [Fábio Moon e Gabriel Ba]. Tem gente de outras gerações que ainda não são muito conhecidas, que acho maravilhosos. Tem o [Marcelo] Lélis, o [Fábio] Zimbres, Allan Alex, os textos do Patati. Tem muita gente boa. Desse pessoal novo, quem me impressionou bastante foi o Rafael Sica, achei bastante interessante. O problema daquele pôster que eu fiz do cara sentado no sofá e a família suicida é que hoje eu sou o cara, estou no sofá. Eu sou a família brasileira hoje. Mal e porcamente, mas sou, de alguma forma. É muito triste, cara, ver... Vir aqui é muito emocionante rever pessoas que conheci em 1991, na primeira Bienal [de Quadrinhos]. E eram pessoas cheias de sonhos e acreditavam muito nos quadrinhos. E elas estão aí tentando ainda, 20 anos depois, muito velhas... Porra, cara é muito triste. Muito emocionante também ver esses caras. Eu sei o que é essa luta. Ver esses caras ainda aí é muito emocionante, mas é muito triste também. E você vê esses jovens aí, que têm uma energia, e espero que essa energia persista por 20 anos. Porque ninguém vai muito longe. Quadrinho não vai muito longe, é um problema cultural. E mesmo que não seja cultural, Portugal é um lugar que respeita muito os quadrinhos e também não vende. O pessoal está parando de produzir porque não tem onde publicar, porque as pessoas não têm dinheiro pra comprar. É difícil, tem que fazer por essa obsessão ou fazer como um hobby e encontrar um tempo pra produzir isso. Mas ninguém vai muito longe com isso, não.
Pois é, você falou ainda pouco que ainda é uma coisa muito marginal. Mas agora está um momento bom, mas, segundo você falou, são ciclos e fases. Tem várias editoras surgindo, selos...
Mutarelli. Mas, assim, você vê, a Chiclete com Banana vendia 120 mil exemplares. Hoje em dia tem grandes editoras publicando quadrinhos, como a Companhia das Letras e várias outras, mas a tiragem desses quadrinhos é de 3 mil exemplares. E eu sei, por experiência própria, que esses 3 mil exemplares vão levar três anos, no mínimo, para vender. Então os quadrinhos, que eram um produto de massa, em banca e se vendia barato, a única forma de sobrevida que ele encontrou é ser editado como um livro e a custo de um livro e ser vendido dessa forma. Então também acho que esse fôlego das grandes editoras não vai durar muito.
É uma bolha que talvez esteja sendo criada agora?
Mutarelli. É, eles estão investindo, acreditam, é um movimento que vem de fora. Você vai a Nova York, toda livraria bacana tem uma vitrine só pra quadrinhos. Eu não sei se lá isso vende. Aqui eu sei que não vende. Então é um esforço, as pessoas acreditam, investem, mas se isso não vender, não retornar de alguma forma, vai ser abandonado.
E para onde foi aquele público que comprava tanto? Porque até o Laerte estava comentando que ele ia na banca [ver quem comprava a Piratas do Tietê, revista que ele editava] e era um garoto de 14 e um coroa de 80 anos comprando a mesma revista, e isso dava um ânimo fodido pra ele. Onde foi parar esse público?
Mutarelli. É um grande mistério. Acho que foram abduzidos por extraterrestres. Porque ninguém sabe onde eles foram parar. Não é possível que eles tenham envelhecidos, que seja só isso. Eles sumiram. Eles sumiram. Num sei onde estão. Mas achei que tem a coisa tipo videogame, internet, tudo isso ocupou um espaço, não como vilão, mas como mudança. Talvez seja isso também. É um mistério.
Acha que agora, com um espaço como este festival, voltando depois de 17 anos aqui pro Rio, entre outros fatores, pode ajudar a criar de novo isso?
Mutarelli. A única forma que isso pode vingar é botar esse vício ou essa semente do gosto pelos quadrinhos nessa geração mais nova. Essa geração mais nova é uma geração extremamente poderosa. Uma época, fiz até um protesto, porque usava um tipo de bico de pena para fazer meu letreiramento, pois letreirava à mão, e esse bico de pena sumiu do mercado. Existia um período onde você não encontrava mais certo tipo de papel. Mas tem uma geração hoje com uns 30 anos que tem um saudosismo que não é deles. Eles têm um saudosismo da minha geração. Acho que foi essa geração que recuperou, por exemplo, o vinil. E que recuperou o bico de pena. Hoje eu encontro em algumas lojas especializadas os tipos de pena que não encontrava há 20, 25 anos. É essa geração que começa a perceber alguma coisa interessante aí, é quem pode tornar possível essa sobrevivência de alguma forma. É uma geração que, apesar de ter toda essa tecnologia, tem um olhar também muito curioso e muito interessado em várias coisas. Então a esperança está nisso, nessas pessoas. E que surjam gerações novas que se interessem por isso. Acho que é a única forma disso se viabilizar. Porque, num ponto, ninguém acreditava na reimpressão do vinil. Isso tinha parado e voltou bastante forte, graças a essas pessoas. E é outra qualidade sonora. Se as pessoas continuarem com essa curiosidade, interesse de experimentação, aí tem espaço pra muita coisa.
E você voltou a produzir quadrinhos, né? Li que estava produzindo um álbum [o recém-lançado Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente (Quadrinhos na Cia.)]. Fala um pouco desse trabalho e por que decidiu fazê-lo.
Mutarelli. Eu voltei totalmente contra a minha vontade. Voltei a desenhar muito, pra mim, de forma bastante experimental e libertária, que é uma coisa que nunca tinha feito na minha existência. É um material que acho que dá para ser publicado, de alguma forma, um dia. Espero que uma obra póstuma, pra pagar o meu enterro, e o da viúva. Mas eu não consegui nenhum trabalho decente esse ano. O único trabalho decente era uma história em quadrinhos, que eu não queria fazer. Então o que eu conseguir dobrar os caras é fazer uma história com um desenho por página, num formato horizontal. É meio uma tela de cinema, onde entra o texto e imagem. Eu não gosto do resultado, mas é um trabalho, preciso trabalhar.
E por que não gostou?
Mutarelli. Porque não consigo a mesma liberdade que consigo nos meus cadernos, por exemplo. Eu queria uma coisa mais libertária, uma coisa mais experimental. Acho que a gente tem que recuperar um pouco o experimental, no bom sentido. Eu não quero... O fato de você se profissionalizar é muito perigoso. É muito perigoso você se acostumar no que dá certo e ficar fazendo isso. Mas eu não quero isso, quero experimentar, no melhor sentido. “Experimentar” fica uma coisa meio... quero ter prazer no que eu faço e ter surpresa ou sei lá. Eu não quero fazer o que sei fazer. Eu não sei fazer nada, mas não quero aprender a fazer nada também. Esse quadrinho, cheguei num lugar muito morno. Talvez eu ainda salve isso, ainda estou no meio do processo.
Não tentou vender a ideia dos teus cadernos, publicar os teus sketchbooks?
Mutarelli. Ali tem gerado muita matéria-prima para eu criar algumas coisas e tem coisas, visualmente, que me agradam como nada na minha obra me agrada. Eu não gosto de nada desenhado meu. Porque tem um desgaste, tem uma coisa. Eu nunca gosto de rever essas coisas que já fiz. Esses cadernos eu gosto. Uso um material muito ruim. Porque isso é uma coisa muito interessante. Quando comecei a trabalhar usava material ruim porque não tinha dinheiro. Então fui trabalhar nos estúdios Mauricio de Sousa, onde a gente trabalhava com um material muito bom. Aí percebi a diferença. Quando você não sabe desenhar, a técnica é muito importante. Você aprender a técnica. Quando você aprende e usa um material bom, dá um salto no teu trabalho. Só que a técnica te aprisiona. Chega um tempo que é mais fácil ficar fazendo aquilo e não experimentar mais. Então quando consegui um domínio da técnica, comecei a trabalhar com material ruim, voltei a ele. E esse material ruim me dá um descontrole. E o descontrole é muito prazeroso quando você chega ao seu limite. O limite não quer dizer que você é bom ou ruim, é que você chegou no limite, é aquilo. Sabe que dali pra frente você não vai avançar mais. Vai fazer um truque ou outro, vai usar essa técnica, mas é prisioneiro dela. Então o que me dá muito prazer é me surpreender no meu trabalho. Em uma época, quando começou o computador, eu desenhava com o mouse, porque era muito diferente, estou desenhando aqui olhando ali [na tela]. Parecia que eu tinha entrado no corpo de uma criança de quatro anos e estava desenhando com um sabonete. E isso é legal, porque você não tem o controle daquilo. Mas nos cadernos tenho experimentado muito coisa com material muito ruim e às vezes até com material bom misturado e acho que aí tenho alcançado lugares que me agradam muito. Acho que a busca de todo artista visual é tentar voltar para aqueles desenhos da infância, da liberdade. Então, muitas vezes, as pessoas que vêem meu desenho acham que é um lixo, mas eu sei o valor que tem aquilo, sei o caminho que levei para conseguir chegar naquilo de volta.
[Felipe] Mas você não acha que essa geração nova, que você mencionou, da internet etc., está tão saturada de imagens? Como você disse, uma hora teve que parar de desenhar. Essas pessoas são justamente as que sabem valorizar o tema, mais do que o traço. Falo isso porque os caras que gosto muito hoje em dia são os que não são grandes desenhistas, mas o desenho serve muito ao tema deles.
Mutarelli. Sem dúvida. Porque mesmo o que é um bom desenho é muito relativo. Por exemplo, eu adoro os desenhos do [Fábio] Zimbres, que é um cara que não tem o desenho ideal, mas eu vejo o valor que tem esse desenho, acho assombroso. E não é um desenho virtuoso. Eu gosto do traço sujo, do desenho de criança. Acho que é justamente isso. Mas não é só também narrar uma história, porque o Zimbres consegue, por exemplo, isso, de ter um magnetismo ali naquela imagem. De conseguir ter uma unidade naquela história. Porque se é uma coisa muito limitada, ela se perde. Tem muita gente boa agora que não tem um desenho virtuoso, mas um desenho que cumpre o seu papel. A nova geração tem essa coisa também de ter acesso a tudo. Embora eles consigam acumular tanta coisa, não dá tempo de fruir, de absorver tudo isso. Mas acho que... Eu não sou tão pessimista assim. Tem pessoas muito interessantes e muito interessadas, um pessoal novo que acaba resgatando e tendo acesso a todas as épocas que se produziu, e consegue trafegar por isso aí. Acho isso muito rico. Quando eu era novo, era muito difícil conseguir o VHS de alguns filmes, mas tinham os cineclubes, coisas que a gente frequentava. Eu peguei sessões de filmes brilhantes com seis pessoas no cinema. Depois o cineclube ou a mostra virou uma coisa meio de moda. Mas tem uma resistência, sempre vai ter. Sempre tem pessoas brilhantes que estão ali, estão de olho. Porque também não adianta você saber escrever, o que a gente precisa é de pessoas que saibam ler. Não alfabetizadas, mas que saibam ler. E isso existe, e é bastante forte, interessante. Você conversa com pessoas muito jovens que têm um panorama bem interessante.
[Felipe] Estava pensando nisso, que o Ziraldo falou pro [Milo] Manara, na palestra dele: “Manara, o pessoal no Brasil não lê, não existe essa cultura”. Aqui, a televisão fez muitas vezes o papel do livro, ela é muito mais forte aqui do que a literatura. E as pessoas sabem ler imagem muito bem. O Brasil tem esse potencial e o quadrinho faz esse meio de campo entre o audiovisual e a literatura.
Mutarelli. A TV tem um problema seriíssimo. Quando eu era novo, gravava muito filme em VHS. A Globo, por exemplo, passava Fellini de madrugada. Mas teve um ponto em que a Globo estava muito ameaçada pelo SBT e ela baixou o nível para se equiparar. Não sendo preconceituoso nem nada, mas o nível caiu absurdamente. Quando abriram a porta para o sertanejo – não estou sendo preconceituoso, acho que tudo isso merece espaço, mas eles abriram demais, isso era lucrativo e eles largaram mão de tudo. Ainda temos a TV Cultura, ainda tem uma resistência. E a gente está sempre em transição, é um momento em que... quando isso deixar de dar dinheiro para eles, talvez voltem a recuperar alguma coisa. Acho que são essas transições, mas teve um momento em que a TV descuidou demais da mínima qualidade do que veiculava. E sem dúvida, é cansativo, a pessoa trabalha o dia inteiro, fica horas e horas no trânsito, quando chega em casa, é muito mais fácil sentar, ligar uma TV e conseguir esvaziar um pouco a mente – o que é muito saudável – enquanto janta, descansa duas horas, para tomar o banho e pegar a próxima condução. Também acho que isso é importante, a telenovela, temos coisas bastante interessantes ali. Não sou preconceituoso, não acho que as pessoas devem falar tão mal de Paulo Coelho ou de... Tudo isso tem espaço. E tem valores, né? Mas o que tenho mais esperança é nessa molecada que faz a televisão dela na tela [do computador], vai atrás do que quer, se alimenta e se comunica rapidamente com o mundo todo. Isso é bastante interessante, pode trazer... Porque eu mesmo cheguei às grandes editoras porque alguém me descobriu numa pequena editora. As grandes editoras, os canais de televisão estão percebendo que existem pessoas pequenas e marginais que podem ser bastante interessantes para elas.
[Felipe] Não existe a preocupação de formar público, eles querem a demanda por alguma coisa, mas se eximem de fazer. Por exemplo, você saiu por uma editora pequena, e só depois foi para um grande...
Mutarelli. Há uma preocupação na formação de consumidores. Isso é bastante importante para eles, porque vivem disse. O público, claro, tem grandes empresas que se preocupam com isso também. Isso tudo está sendo muito revisto, é um momento forte. Por isso que falo dessas pessoas que estão atentas a muita coisa. Hoje em dia é muito fácil as pessoas se autoeditarem, fazer uma edição bonita, a um preço barato. Acho isso tudo muito positivo. O problema é que a gente está nessa transição, é um momento difícil. O problema é que estamos deixando o mundo todo ir para um lugar, a gente fica rezando, sabe que não tem uma solução fácil para o ponto em que chegamos. Então a gente reza para os tsunamis, os meios naturais, para que dêem uma equilibrada. Mas, naturalmente, com o tempo, as coisas vão dar uma assentada.
[Felipe] Acha que tem uma tendência em voltar a ser artesanal?
Mutarelli. Sim, tem uma tendência a isso e um desespero em encontrar uma ideologia, seja ela qual for. As pessoas precisam encontrar pessoas em quem elas acreditem, se identifiquem e dialoguem. Que não seja um movimento político, então que seja um movimento... O problema é isso, aí vai chegar o grande, vai te pegar, te levar para lá e você estava no sofá, cuidando da família. Você não tem como negociar. Mas o negócio é você não negociar com você mesmo. Isso é importante. Você não ceder. “Tô lá, é isso que vocês querem? Vocês vão ter isso. Isso é o que eu faço.” Se você conseguir, de alguma forma, isso. É claro que um dia... Estou num momento em que virei meio na moda, né? E aí, isso vai passar. Mas tenho esperança nisso, que alguém olhou ali, e que esse alguém uma hora vai estar na moda e esses movimentos vão continuando e... A gente está só de passagem. Estou fazendo, sei lá, fazendo o que eu sei fazer. O que eu não sei fazer. O que é o mais legal é o que não sei fazer. É o que mais quero.
Pegando esse gancho, fala um pouco da tua atuação tanto no teatro como no cinema, que era algo que tu não sabias fazer. Se não me engano, n’O cheiro do ralo foi tua primeira colaboração...
Mutarelli. Não, eu tinha feito um curta. Na verdade, isso foi muito acidental na minha vida, um menino me chamou para um curta-metragem, ele queria que eu protagonizasse. Eu tinha escrito minha primeira peça e os atores às vezes falavam da dificuldade de verbalizar alguns diálogos. Eu fui meio como um espião, um policial infiltrado, um autor infiltrado. Fiz um curta, depois O cheiro do ralo, aí fiz mais uns cinco ou seis curtas. Aí surgiu a oportunidade de eu protagonizar O natimorto. Fiz duas participações com a Anna Muylaert, papéis pequenos, mas coisas muito enriquecedoras pra mim. Gosto muito de absorver coisas que podem, de alguma forma, virar matéria-prima. E aí o [Mário] Bortolotto fez uma peça [Música para ninar dinossouros], que era pra mim e pro Paulo [de Tharso], ficamos em cartaz. Estou pretendendo agora me afastar disso. Foi legal, bastante interessante, mas pretendo sair, fazer pequenos papéis em filmes. Teatro é uma coisa que te prende muito, requer uma concentração muito absurda. Acho que vou sair de cena, literalmente.
E O natimorto, quando escreveu, creio que não imaginava que seria você a interpretar o personagem, caso algum dia ele viesse a ser adaptado. Fala um pouco desses conflitos, primeiro, você adaptando uma obra sua, segundo, depois de um tempo de distância, e também um personagem que é bem forte.
Mutarelli. O natimorto era o livro de que mais gostava, de tudo que eu fiz. Tenho dúvidas, hoje eu gosto muito d’A arte de produzir efeito sem causa. Gosto muito do meu último livro, Nada me faltará. Então não sei se O natimorto ainda é o meu livro preferido. Mas ele foi adaptado pelo Mário Bortolotto pro teatro. Eu nunca me identifiquei com aquele personagem. E quando fui ver no teatro, uma adaptação que gosto muito, embora seja completamente diferente da adaptação do Paulo Machline pro cinema, eles escolheram um ator que é muito parecido fisicamente comigo, o Nilton Bicudo. E eu vi muitas vezes essa peça, gostava muito de ir ao teatro. E comecei a me ver naquele personagem. Mas é um personagem em que eu não queria me ver ali, pois ele não é muito agradável. Quando vendi os direitos, já vendi pro teatro e pro cinema, e falei que até imaginava uma peça, mas não imaginava um filme, não sabia como eles iam fazer isso. Quando resolveram filmar, a ideia inicial era para o Marco Rica fazer o papel, mas ele não pôde, ia ser o Matheus [Nachtergaele] e ele também não pôde. Aí eles começaram a cogitar alguns galãs. Foi quando eu me ofereci para fazer um teste, porque achava que não poderia ser um galã. Um galã mataria a força daquele personagem, tinha que ser alguém que não fosse esteticamente bonito. Aí surgiu uma possibilidade, fiz uma leitura com a Simone [Spoladore, atriz do filme] e acabei fazendo. Foi uma experiência muito profunda pra mim. E o mais difícil, eu não fiz o meu personagem, fiz o personagem do Paulinho [o diretor]. Ele tinha uma visão que às vezes não batia com a minha, mas era o filme dele. Ali eu era um ator, queria chegar no que ele queria. E quando vi o filme pronto, vi o quanto ele se aproximou da minha obra. Ele tirou todo o humor que tem no livro e que a peça ressaltava. E isso tornou o filme muito mais fiel à minha obra. Foi bastante interessante, é muito difícil você se ver fisicamente ali. Acho que talvez o filme tenha problemas no começo, mas gosto muito dele. Mas é isso, foi uma experiência...
Lourenço, tem uma frase que li outro dia [do escritor polonês Witold Gombrowicz] e achei interessante: “A arte perturba os satisfeitos, e satisfaz os perturbados”. O que você acha disso?
Mutarelli. Acho ótimo, né? Do jeito que a medicina e esses antidepressivos estão evoluindo, logo eles vão inventar um remédio que ninguém vai precisar mais de arte. Arte tem muito a ver com distúrbio. A minha arte é muito uma coisa patológica. Acho que arte tem muito disso, mas é muito necessária também para os perturbados. E, como falei, cada vez tem mais gente perturbada. Então, cada vez mais, a arte é mais importante para essas pessoas. A arte possibilita um diálogo, muito interno, muito silencioso. Mesmo que seja livro, filme, mesmo que tenha vozes, o dialogo é muito silencioso, muito interno. É muito fundamental. Se me tirassem os meus discos e os meus livros, eu não duraria muito. Acho que essas coisas são muito vitais. Caso isso acontecesse um dia, ia ficar todo mundo querendo trabalhar em banco e feliz com isso, feliz em pegar trânsito, feliz com a eleição. O povo ainda é muito zumbi, a minha esperança é que essa molecada acorde do transe. Tem uma massa muito zumbi aí, que a arte às vezes consegue tirar desse transe. É quando o cara pensa “acho que não é bem isso”, mas aí depois ele volta pro mundo zumbi dele. É isso, eu não tenho ilusão, esperança de mudar nada, mas também não acredito que as coisas sejam sempre o que elas são. É tudo muito transitório. Nenhum império dura muito. Para a nossa existência às vezes parece muito, mas está tudo transitando e se apagando. A gente não vai conseguir guardar muita coisa por muito tempo, se o planeta continuar. Mas sempre vão estar surgindo coisas.
Animal entrevista, repostei um trecho no meu blog!
Excelente entrevista!
Mt bom, parabens!
Muito boa, tô divulgando.
Entrevista muito boa mesmo! Gosto muito do estilo de desenho do Lourenço, assim como seus temas bizarros. Acho que a água que bebo anda me deixando doente, ou não. Sei lá.
Os Sketchbooks do Mutarelli serão lançados em breve pela editora independente Pop: http://www.sketchbooks.art.br
Excelente notícia!
Ótima entrevista, parabéns. E valeu pela notícia Célia.