Quando, nos anos 1960, todos pareciam ter olhos apenas para as loiras de cabelos compridos a la Brigitte Bardot, ele surgiu com uma mulher diferente, de cabelos bem pretos e curtos, inspirada na atriz de cinema mudo Louise Brooks. Guido Crepax não sabia que Valentina seria a mulher de sua vida nos quadrinhos quando a desenhou pela primeira vez, em 5 de dezembro de 1965, como uma personagem secundária em um suplemento de jornal italiano. Mas ela roubou a cena e os editores começaram a pedir mais histórias em que o destaque fosse ela, Valentina. Assim Caterina Crepax apresentou a personagem criada por seu pai ao público brasileiro, por quem a filha de Guido disse ter apreço especial por conta de uma característica que ela descreveu como "a capacidade de entender bem as histórias que meu pai criou, que misturam realidade, verdade e sonho. Brasileiros são bem abertos nesse sentido de mesclar realidade com sonhos.” Para Caterina, os europeus nesse sentido são um pouco mais fechados, “acham que a vida real e a vida dos sonhos são duas coisas separadas”.
"As histórias dela são também histórias de coisas que aconteceram em nossas vidas”, explicou ela, em português, que fala quase perfeitamente, por ser casada com um brasileiro, mas também: "Ele gostava muito de escutar minha mãe, ela contava sonhos que tivera à noite e ele inventava uma história em cima desses sonhos. Também gostava de inserir citações de filosofia e literatura em suas páginas".
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Por conta de as histórias de Crepax serem consideradas muito sofisticadas, difíceis de serem compreendidas às vezes, hoje na Itália são lançadas edições anotadas, com todos os segredos de cada quadrinho. Apesar de “difícil”, Valentina é um ícone até hoje e, como tudo que é popular, causou reboliço: "As feministas brigavam muito com meu pai, reclamavam que ele estaria mostrando de maneira errada como funcionava a cabeça de uma mulher, através de uma fotógrafa que se imaginava em várias situações eróticas. Eu acho que essa é uma leitura muito superficial de Valentina". Tempos depois, as representantes do movimento feminista italiano ofereceram desculpas a Crepax, segundo Caterina, dizendo que ele fora o único capaz de apresentar a visão de uma mulher completa, com desejos e ambições, liberdade sexual e profissional.
A vida em casa com Guido forneceu o ambiente perfeito para criar a arquiteta e designer Caterina. "Dei a sorte de crescer em uma família como a minha, perto de um pai como o meu, e ele sempre deixava a porta de seu estúdio aberta para os filhos. Com seus desenhos, sem querer ser didático, ele nos ensinou isso, a acreditar na fantasia, no sonho, a ter sempre a cabeça criando alguma coisa. Essa é a ligação entre mim, meu pai e o papel. Quando eu era criança sempre tinha um pedacinho de papel ou de cartolina por perto, ou papel de embrulhar alimentos, que eu usava para desenhar; tinha familiaridade com o papel.”
Segundo Caterina, Crepax também criou para os filhos jogos com regras próprias. “Tinha um com as batalhas de Napoleão, ele cortava dezenas de soldados cheios de detalhes, em miniaturas. E ele jogava comigo e com meus dois irmãos. No meu trabalho hoje em dia presto muita atenção aos detalhes, pequenas coisas que com muitos detalhes formam um inteiro."
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A moda riquíssima em detalhes de Valentina saía direto das páginas de revistas dos anos 1960 e 1970: “Ele nunca inventou um vestido por exemplo. Ele costumava comprar a Elle francesa e documentava a moda. Ver a Valentina das décadas de 60 e 70 é como ver um catálogo de moda daquela época. Ele colocava na vida da personagem muitas coisas que a gente usava em casa, como os móveis, carros, até bonecas... mas numa dimensão completamente onírica, não tinha a ver com a nossa vida. Os vestidos da revista, por exemplo, eram também os vestidos da minha mãe. Muita gente achava que poderia encontrar a Valentina pelas ruas de Milão nua, tirando fotos, tão real que parecia”.
Caterina destacou que Crepax, com suas páginas fragmentadas, foi um dos primeiros a quebrar o esquema da página norte-americana para dar um efeito mais ligado ao do cinema. “Algumas pessoas falavam que ele desenhava suas páginas como uma planta de arquitetura.”
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Guido adorava cinema, mas Caterina e seus irmãos ainda não encontraram em Hollywood quem possa fazer Valentina como a imaginam na telona, apesar das investidas de Jessica Alba, que procurou a família Crepax, interessada em tocar o projeto. Valentina era “uma pessoa de casa,” então é preciso cuidado ao escolher quem a interpretará. “Jessica é muito bonito, mas não é ela...”
Valentina “estava sempre presente, fazia parte da nossa vida. Ela tinha um diálogo com meu pai. E meu pai sempre disse que não queria ninguém desenhando a Valentina depois dele. A Valentina fala em certo quadrinho ‘ele me desenha muito bem, eu não deixaria nenhuma outra pessoa me desenhar, e quando ele morrer, eu vou me suicidar.’ Na mostra Valentina no Rio Comicon a gente vê a Valentina viva em outras coisas, uma vida diferente em móveis, em roupas, sua imagem aplicada em outras coisas. Ela é um ícone,” afirmou.
“Dizem que meu pai antecipou os tempos com Valentina, que tinha um filho fora do casamento e tinha seu próprio estúdio para trabalhar. Ela era libertina nos sonhos, e na verdade era uma pessoa séria e romântica, como meu pai era muito romântico. Ele era a pessoa mais tranquila do mundo, passou a vida inteira ao lado de minha mãe. Para ele bastava a fantasia,” concluiu.
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