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Um quadrinista brasileiro em Angoulême

O cartunista brasileiro Koostella viajou para a pequena cidade medieval francesa de Angoulême, onde há quase 40 anos acontece um dos mais importantes festivais de quadrinhos do planeta, e relata com exclusividade para o portal do Rio Comicon como foi a experiência. Na sua 39. edição, o Festival de Angoulême teve como presidente do júri o quadrinista norte-americano Art Spiegelman, autor de Maus - A história de um sobrevivente (Cia. das Letras, 2005), clássico publicado orginalmente em 1986 e 1991 e que retrata a vida de seus pais, sobreviventes de Auschwitz, e até hoje o único quadrinho a ganhar o Prêmio Pulitzer. O grande homenageado foi Jean-Claude Denis, com mais de 30 anos de estrada, e conhecido pelo seu personagem Luc Leroi; no país, ele lançou Cidades Ilustradas: Belém (Casa 21). O principal prêmio do festival, o Fauve d'Or, foi para o canadense Guy Delisle, por Crônicas de Jerusalém, que a Zarabatana publica aqui entre maio e junho. Outros premiados foram Carl Barks, com La Dinastie Donald Duck, e o francês Cyril Pedrosa, com Portugal.

A seguir, Koostela – autor de Gefangene - Sem saída (Zarabatana, 2010), que reúne 31 histórias silenciosas de desesperança, paranoia, ironia e vingança sobre a asfixia e sufocamento de ser encarcerado – relata e fotografa o seu festival, as atrações e exposições que conferiu, a Off Angoulême e os shows de trash metal.

Angoulême 2012

Por Koostella*

Vi Charles Burns assistindo a um show trash, quase esbarrei em Joe Sacco e não entendi o que Art Spiegelman estava fumando. Eu estava hospedado em um quarto de oito metros quadrados com mais três pessoas do Couch Surfing. A cidade estava completamente abarrotada de visitantes. O Festival de Quadrinhos é o grande acontecimento do ano na pacata cidade de 43 mil habitantes. E, por azar, é realizado no inverno, por isso ninguém se arrisca a acampar.

Assim que cheguei em Angoulême, tratei de arranjar um mapa do festival e uma programação. E como de praxe, o mapa estilizado não condiz com as ruas tortuosas da cidade medieval, fazendo o visitante aqui dar milhares de voltas até encontrar os lugares que desejava visitar. A programação também não me ajudou muito, pois está toda em francês, mesmo sendo um festival internacional. Mas é assim mesmo, parece que os franceses não aceitam que o mundo não fale mais a sua língua. Ano passado, por exemplo, consegui milagrosamente entrar em uma palestra do Moebius e depois de 20 minutos metade da plateia já havia se levantado e ido embora, pois não havia tradução simultânea para o inglês.

Desta vez, minha primeira visita foi à uma pequena exposição de Joe Sacco, autor de Notas sobre Gaza, Palestina e Gorazde: Área de Segurança, realizada por organizações pró-Palestina em conjunto com a Anistia Internacional. Lá, além de cópias ampliadas de seus desenhos, havia alguns cartuns de outros autores colados nas paredes e uma pequena sala onde era exibido o documentário The Iron Wall, dirigido por Mohammed Alatar, para uma plateia de uma pessoa só: eu. O documentário era bom, e antes de sair de lá perguntei quando Sr. Sacco apareceria, mas não souberam me responder. Porém, no dia seguinte acabei quase esbarrando nele quando eu entrava no pavilhão do Novo Mundo (Nouveau Monde), o meu preferido. Tirei minha câmera da mochila e saquei uma foto antes que ele evaporasse com seu tradutor. É no Novo Mundo que ficam as editoras mais underground, como L'Association, Nobrow, além de editoras norueguesas, islandesas, finlandesas, romenas, espanholas, do fim do mundo. E é onde você também encontra quadrinhos em outras línguas (ou em língua nenhuma) com bons autores como Daniel Clowes, Blanquet, Thomas Ott, Killoffer, David B., Crumb etc. No entanto, os verdadeiros quadrinhos underground estavam escondidos à 400 metros dali, mas daqui a pouco falo sobre isso.

Como essa era minha segunda vez em Angoulême, resolvi não cometer os mesmos erros do ano passado. Decidi nem ir visitar os pavilhões que abrigam as grandes editoras. Não tenho mais paciência para ver centenas de livros sobre fortes homens acrobatas vestindo tangas coloridas e garotas siliconadas carregando metralhadoras de 500 quilos. Na minha opinião, essses estandes só expõem autores descartáveis trabalhando para uma indústria perversa que alimenta o sonho assassino de crianças remelentas que se aglomeram como Gremlins para conseguir um autógrafo do pobre desenhista do momento. É nessas horas que dou graças aos céus por o Brasil não ter uma indústria dos quadrinhos tão competitiva, tornando a cena alternativa brasileira cada vez mais forte, importante e verdadeira.

Depois de passar no Novo Mundo, andei uns 400 metros por entre becos e ruelas e encontrei a F.OFF 3, a Off de Angoulême, a zona underground do festival. Eu fui lá com uma mala trolhada com meus quadrinhos (à esquerda): Gefangene – Sem saída, lançado pela Zarabatana em 2010; Um morto que vive, quadrinho independente em 76 páginas com quatro histórias de terror contadas em verso; os dois volumes do mini-livro Vexame Vitae e uns cacarecos que eu tinha pra vender. Pronto, fiz meu comercial. Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Na F.OFF 3 eu encontrei a Maria Clara, representante internacional da Barba Negra, que estava vendendo os novos quadrinhos brasileiros, produtos independentes da Beleléu, d’ A Bolha Editora, da Narval Comix e calendários Pindura, e resolvi me abancar por lá. Lá tinha gente de tudo quanto é lugar que produziam fanzines, livros independentes, quadrinhos serigrafados, pôsteres, serigrafia em 3D, vídeos, o diabo. E ainda rolavam uns shows trash à noite, sem falar no grind core surrando nossas orelhas num toca-fitas durante o dia. Eu estava quase me sentindo em casa, mas às vezes saia para tomar um ar. Um dia saí pra ver uma palestra do Charles Burns, autor do já clássico Black Hole (Conrad, 2007), que estava na programação. O lugar era minúsculo. Tinha umas 20 cadeiras, eu estava de pé, suando, completamente espremido na multidão. Depois de dez minutos falando em francês a moderadora resolveu fazer uma pergunta, da qual eu só entendi a palavra “Seattle”, e Charles respondeu: “Na verdade eu venho da Califórnia”. A moderadora continuou falando por mais alguns minutos e eu fui embora pois já estava asfixiando. Na noite do mesmo dia Mr. Burns resolveu visitar o show trash da F.OFF 3. Ninguém percebeu. Ele parecia um ser comum, apesar de eu ainda desconfiar que ele não é humano.

No decorrer da noite, entre uma cerveja e outra, conversando com alguns participantes do festival, um francês me perguntou o que eu preferia: BD ou comics? Essa pergunta me deixou intrigado. Os franceses realmente acreditam que existe uma enorme diferença entre BD (ou bande dessinée) e comics.  Ou seja, os quadrinhos franceses e os quadrinhos americanos, assim como o mangá e o quadrinho ocidental. Se existisse mesmo uma diferença tão enorme assim como eles dizem, por que raios o maior festival de BD do mundo teria como convidados ilustres os americanos Charles Burns, Joe Sacco (maltês naturalizado americano) e Art Spiegelman? Não sou nenhum amante dos americanos, mas o nacionalismo francês às vezes me dá nos nervos. E tinha caras ainda que podiam jurar que BD era o quadrinho francês industrializado e “bande dessineé”, assim, falado por completo, era o quadrinho francês alternativo. Pior que isso é só a grande discussão sobre o termo graphic novel... Mas aí já é outra história.

Quando o último dia chegou, fui ver uma pequena palestra de Art Spiegelman que não estava na programação e era em francês e inglês (finalmente!). Desta vez a sala estava quase vazia (até que enfim!). Eu estava bem na frente (ufa!) sentado ao lado de um amigo jornalista. Spiegelman falava sobre sua exposição que trazia também, além de seus desenhos, uma grande parte dedicada às obras de seus “mestres”. Nessa palestra, além de dizer que “os sucessores é que fazem seus predecessores”, ele fumava um cigarro estranho que tirava minha concentração. Uma hora a brasa estava vermelha, outra hora estava azul ou laranjada. Aquilo era agoniante. Comentei isso com meu amigo jornalista e por fim, quando não haviam mais perguntas, meu amigo perguntou: “O que você está fumando?” Era um cigarro digital, que segundo ele: “Fica bem com a paisagem”. Depois eu fui visitar a expo de Art Spiegelman. Era gigante. Muito bonita. Porém, não tinha nenhum original das páginas de dentro do Maus, a obra que consagrou o autor, apenas os rascunhos eram originais.

Naquela noite, no final da F.OFF 3, trocamos livros, fanzines, cartões, desenhos, contatos. Para mim, o lado B foi o mais produtivo, divertido e organizado de todo o festival. É o que vai me levar a percorrer essas oito horas de trem novamente no ano que vem e enfrentar noites frias e mal dormidas com um sorriso no rosto.

* Koostella (1979), é quadrinista, cartunista e ilustrador. Autor de Gefangene - Sem Saída (Zarabatana 2010) e do livro de tirinhas Quem é Toniolo?, coautor do livro Edição de Risco, organizador e autor de diversas exposições de cartuns no Brasil e Alemanha, entre elas a Die Cartoons des Weltsozial Forums, que fez parte do congresso internacional de quadrinhos Comicologischer Congress, realizado em Munique em  2004. Mora atualmente na Basileia, Suíça, e colabora com revistas como Zupi e Eulenspiegel. Saiba mais em seu blog.

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Um comentário

  1. Muito bom.
    Irei usar agora as palavras do Chico Anysio.
    "Tem humor bom e ruin", tem quadrinhos que é bom e tem o que não é tão bom assim. Acredito que bebemos bastante na fonte do quadrinhos europeus, Moebius é um deles. O prórpio Crumb mora hoje na europa.
    Confesso que fiquei com inveja, mas é uma inveja saudável.

    Alex Sander
    http://www.burraxa.blogspot.com

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